Hoje à noite estava chegando em casa e lembrei daquela expressão. Talvez você não saiba exatamente a que eu me refiro, mas eu explico. Estavamos na sala do seu flat antigo no meio de qualquer assunto quando eu olhei nos seus olhos bem de perto e mudei o subject. Comentei que eles eram verdes, mas ao mesmo tempo tinham umas partes azuladas. Instantaneamente você corou e se desconcertou... sem graça, desviou o olhar... e em seguida me encarou novamente, respondendo que não sabia.
Depois de uma semana de calor e sol a expectativa era de que o primeiro domingo sob horário de verão bombasse no clima tropical ... Nessas, quem imaginou que Saint Peter fecharia a cara e o dia amanheceria nubladíssimo? Ao menos não choveu. E eu, que acordei atrasado pois esqueci de adiantar o relógio, tentei malhar antes de ir ao chill-in. Rolou e não rolou. Foi aquele treino meia boca de quem viu que não dava mesmo tempo de ir à academia e "treinou" em casa.
Já na rua, ainda atrasado, pulei na frente do primeiro taxi. E enquanto rumava para o esquenta em Darlinghurst, me redimi antecipadamente da culpa pelas atrações perdidas, coisa certa em qualquer grande festival. Se o lineup é tudo de bom, certeza que alguns DJset incríveis caem no mesmo horário, que umas atrações top dessa tenda começam a se apresentar antes que aquelas que você gostaria de conferir láaaa do outro lado do parque cheguem ao meio... Ok! Viver (festivais) é saber lidar com perdas.
Encontrando o amigo gringo chego ao chill-in, que... bem, quase não merece ser mencionado. Foi só um pit-stop rápido num apê estiloso para encontrar uma galera fervida mas desconhecida (para mim). De lá seguimos em grupo para o Parklife em si, pertinho. A pé não andamos nem 15 minutos.
Estrutura:
Chegando próximo do Moore Park fui admirando a paisagem, a flora, a fauna (hehe)... e quando vi ja estava no caixa do bar! Organização decente é isso. Tudo sossegado a ponto de você nem lembrar se teve fila ou revista no portão (teve).
Parque lindo, bem sinalizado, tendas decoradas na medida certa, NADA de letreiros giga de patrocinadores a cada passo. Soundsystem de presença. No dia inteiro apenas uma vez achei defeito, leve, nos graves do Soulwax brevemente estourados.
Som:
Soulwax e 2 Many DJs são a mesma coisa, mas são completamente diferentes. São iguais pois são os mesmos artistas. São diferentes por todo o resto. O primeiro nome é uma banda, tocando ao vivo as porradas de criação própria (o que era aquela bateria!!). O segundo é o DJset, onde apresentam todos aqueles remixes absurdos que fazem em cima das faixas alheias e recortes mil de outras sonoridades. Em ambos os casos... Incrível.
(Soulwax... pra que menos?)
(2 Many DJs abrindo o set com novo mix de Hey Boy, Hey Girl)
Ouvi o Diplo tocando pela terceira vez na vida. Foi bom e o povo delirou, mas na minha opinião o set deixou a dever comparado às noites em que vi o rapaz levando as pistas do Glória e do Vegas abaixo. O que foi a abertura daquele set na igrejinha do Bexiga com o mix próprio de Staring at The Sun... Senti um pouco de falta do batidão Funk + Miami Bass (aqui não rolou nada disso) e gostei menos dos remixes recentes dele. Mas alguns artifícios continuam presentes e funcionando, como soltar no momento certo umas velharias 80's inesperadas mas contextualizadas, que caem super bem (dessa vez teve Down Under do Men At Work e e um re-edit de Love is In The Air do John Paul Young).
A Peaches é rocker. E poser. Faz a sexual-agressiva, tipo uma Madonna punk nos early years. Peaches berra, pula, tira a roupa e mostra uma lampadinha piscando em cima da xoxota, diz que está piscando para a platéia. Dava para perceber que muita gente não era exatamente fã, estava esperando ela terminar para prestigiar 2 Many DJs. Mas bastante gente pareceu gostar também. Achei divertido.
Ajax: Conferi só um pedacinho. Foi pesado, foi cool, foi electro, foi maximal. E só.
Ouvi bem mais coisas, mas em certos momentos estava meio trilili e não assimilei, só dancei.
Particularidades:
- Jogação pesada combina com festivais, mas anda combinando menos comigo. A despeito da frase acima, peguei leve.
- Passar o dia inteiro num festival desses com um amigo e um monte de desconhecidos é diferente de curtir um dia assim ao lado da própria turma, falando a própria língua. Faz diferença.
- Depois ainda tinha festinha-after no clube Home, balada linda com vista para a Darling Harbour. VIP disponível mas politely declined. O corpo pedia casa, comida e cama.
Resolveu mudar de ares. Outra vez. Chamou o chefe de canto e avisou que estava pedindo as contas. Alegou razões pessoais, sem se aprofundar muito. Não vinha ao caso. Comprometeu-se (iniciativa própria) a cumprir um breve período de aviso prévio, mas sentiu-se navegando por novos mares a partir daquele instante.
O futuro? Incerto. Não tinha os próximos passos absolutamente traçados como teria em situação semelhante caso estivesse no Brasil. Voltou para casa a pé com um leve e gostoso frio na barriga, que combinava com o vento que aliviava a noite quente. Ponderou consigo mesmo que essa era uma das graças de estar em fase estudante-viajante, poder deixar de lado os caminhos que não se adequassem à sua vontade. Sacodir a poeira de repente. Mesmo quando fosse só pelo prazer de renovar, para experimentar outras possibilidades.
Ao lembrar de filmes como Amores Possíveis e Corra Lola Corra pensou que vez ou outra faz um bem danado testar os "E SE..." da vida. Afinal se os próximos parâmetros não se mostrarem tão divertidos, pode mudar tudo. Novamente.
Update (em primeira pessoa): O pedido de demissão só havia sido formalizado com o gerente do trampo, ontem seria o dia de reportar a decisão ao dono. Um cara que sempre foi educado comigo mas tem fama de ser grosseiro, so just in case eu já chegava munido de algumas respostas prontas. Estando cara a cara, mesmo antes que eu abrisse a boca para cumprimentá-lo, o patrão falou. Disse que já havia sido informado da minha partida e ficava triste pela perda de um bom funcionário, mas estaria feliz por mim se fosse esse o rumo que escolhi. E finalizou sorrindo, brincando que se eu souber de alguém capaz de trabalhar com 20% da minha eficiência, estarei intimado a indicar.
Fiquei meio passado, mas agradeci e retribui os elogios onde cabiam.
Pensando depois concluí que a minha postura vendo aquele emprego como algo temporário e divertido era, ainda assim, mais profissional que a de muita gente que ele encontra por aí. E até senti um pouco de saudade antecipada de equilibrar bandejas cheias de Cosmopolitans no ponto turístico mais famoso da cidade.
Zapeando a edição de domingo do Sydney Morning Herald dei de cara com uma matéria no caderno de cultura detalhando como a parcela democrata da América (e do mundo) têm transformado Obama num ícone pop. O texto pincelava os riscos da postura mas focava mesmo nas referências ligadas à moda e à publicidade. Ilustrando, várias imagens de pichações e outdoors ocupavam uma página. No meio delas um cartaz com um slogam óbvio, porém ótimo, chamou a minha atenção:
(Não achei a mesma foto na web, vai uma camiseta com o texto)
Como não me ocorreu antes? Porque durante um período a frase clássica da moda-fashion (parafraseando Bussunda) foi hit pessoal nas horas de fazer graça. E se o sarcasmo já foi o novo preto, assim como a rehab, nada mais digno. Ainda que a minha candidata fosse a Hillary.