Cabelo ruim
Eslovaco. Irlandês. Italiana. Alemã. Cingalês. Jordaniano. Em momentos diversos, foram essas as nacionalidades com as quais convivi sob o mesmo teto em Sydney. A única constante durante todo o período foi a franco-egípcia, que antes de chegar à Austrália estudou na França e na Alemanha e trabalhou na Etiópia. Sabrina. Amiga querida com quem me joguei, ri, chorei, discuti... mas que hoje voltou a mente por um motivo específico. Hoje ouvi uma comparação besta sobre “cabelo ruim” e “cabelo bom”. O assunto nem me dizia respeito, e esse tipo de comentário nem é novidade, mas fiquei espantado de uma maneira que talvez um ano atrás não ficasse. Não sei se essas expressões me afetariam da mesma forma antes, mas agora chocaram. Causaram espanto principalmente por virem de gente mestiça e não de loiras de olhos azuis. Basta ter meia dúzia de fenótipos recessivos para se achar mais gente que alguém? Ridículo, mas aqui no Brasil infelizmente parece que sim. Coisa sintomática de um sistema de castas informal e subdesenvolvido onde quem tem um olho é rei. Racismozinho esnobe de pensamento condicionado que dá pena tamanha a limitação. Triste. Eu nem retruquei pois me senti pego de surpresa. Deu vontade, mesmo o papo não sendo comigo. De todo jeito, se uma resposta cruzada ia mudar algo, não sei. Sei que lembrei da Sabrina e isso me deu um sopro de ar limpo. Amiga inteligente e culta, nascida com um pé na Europa e outro no norte da África, quase australiana, poliglota e uma enciclopédia sobre islamismo e catolicismo. Uma das pessoas mais desprovida de preconceitos que eu conheço, até ter sede de conhecimento e saber que preconceitos nascem na ignorância. Pensei nas histórias que ela me contou sobre suas viagens pela África. Visualizei a miséria e o abandono que ela descreveu assim como os sorrisos, a receptividade e a beleza na cor da pele e na cultura ancestral dos povos que ela visitou. Certa noite, enquanto tomávamos café no terraço do apartamento sob noite estrelada, era difícil decidir se eu me sentia mais arrebatado pela paixão que ela demonstrava pelo assunto ou pela rica descrição de penteados típicos, tecidos coloridos e danças tradicionais. Se não abri a boca para discordar do comentário estúpido de hoje, ao menos me senti motivado a sentar e colocar isso em texto. Para lembrar que sim, dá para ser diferente. Se ao menos elas imaginassem...
Escrito por M. às 05:20 AM
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|